sábado, 12 de agosto de 2017

TROVADORISMO - AS CANTIGAS

TROVADORISMO



CANTIGA DE AMOR

Quer’ eu en maneira proençal
fazer agora um cantar d’amor
e querrei muit’i loar mia senhor
a que prez nem fremusura non fal,
nen bondade, e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de ben
que mais que todas las do mundo val.

Ca mia senhor quiso Deus fazer tal
quando a fez, que a fez sabedor
de todo bem e de mui gran valor
e com todo est’é mui comunal,
ali u deve; er deu-lhi bon sen
e dês i non lhi fez pouco de ben,
quando non quis que lh’outra foss’igual.

(D. Dinis)


proençal: provençal
cantar: cantiga
querrei: quererei
loar: louvar
prez: boas qualidades
fremesura: formosura
fal: falta
comprida de ben: perfeita
val: vale
ca: pois
quiso: quis
sabedor: sabedora
comunal: que se relaciona bem, sociável
ali u deve: quando deve (sê-lo)
er: também
bon sen: inteligência
dês i: além disso

D. Dinis: 6º rei de Portugal, viveu entre 1261 e 1325. 

CANTIGA DE AMIGO

Ai eu, coitada, como vivo
em gran cuidado por meu amigo
que ei alongado! Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!

Ai eu, coitada, como vivo
en gran desejo por meu amigo
que tarde e non vejo! Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!

(D. Sancho I) 

gran: grande
ei alongado: tenho longe de mim
Guarda: cidade do interior de Portugal, próxima da fronteira com a Espanha.
D. Sancho I: 2º rei de Portugal, viveu entre 1154 e 1212 um dos primeiros trovadores de Portugal.


Os dois textos estão escritos em galego-português, um falar que floresceu durante os séculos XII a XIV e marcou a região da Galiza (Espanha) e o norte de Portugal.

A cantiga de amor de D. Dinis é interessante porque registra, logo nos primeiros versos, a influência provençal: ele compõe uma cantiga de amor à maneira dos provençais para louvar a sua senhor. Outro aspecto a destacar é a completa e absoluta idealização da mulher amada, desde os dotes físicos (formosa, perfeita) até a inteligência, sabedoria e bondade; enfim, ela vale por todas as outras mulheres do mundo! Diríamos que Deus a fez e jogou fora a receita porque não queria outra mulher igual a ela. A mulher (assim como todas as outras coisas) é fruto da criação de Deus: assim se manifesta o teocentrismo no Trovadorismo.

A cantiga de amigo de D. Sancho I é bem característica: eu-lírico feminino, autoria masculina; a mulher sofre (autolamentação) porque seu amigo (namorado, amante) viajou e não voltou no prazo marcado. Observe que a mulher está sozinha, preocupada, dando vazão a seu instinto maternal; ao mesmo tempo, confessa o seu desejo pelo amigo. Essa cantiga apresenta uma estrutura paralelística, ou seja, os versos se repetem, aos pares, com ligeiras modificações sem, contudo, alterar o significado.


REGRAS DO JOGO DO AMOR CORTÊS




1.     Submissão absoluta à dama;
2.    Vassalagem humilde e paciente;
3.    Promessa de honrar e servir a dama com fidelidade;
4.    Prudência para não abalar a reputação da dama, sendo o cavaleiro, por essa razão, proibido de falar diretamente dos sentimentos que tem por ela;
5.    A amada é vista como a mais bela de todas as mulheres;
6.    Pela amada o trovador despreza todos os títulos, as riquezas e a posse de todos os impérios.

O “amor cortês”

 Em sociedade tão fechada, de estrutura medieval, o amor – o grande e eterno tema – vai ser uma manifestação de vassalagem feudal, já que as formas de vida e de pensamento também são feudais. O que significa que o feudalismo engendra uma maneira de pensar capitalista. O amor trovadoresco, o “amor cortês” (já que é esta sua designação típica), exigia que a mulher que se cantava fosse casada, fundamentalmente porque a donzela não tinha personalidade jurídica, uma vez que não possuía nem terras, nem criados, nem domínios, não era domina (‘dona’). Em suma: não dispunha para de ‘senhorios’. Ora o poeta não vai prestar ‘serviço’ a uma mulher que não seja ‘Senhor’, e que nós encontramos extensamente o verbo servir como sinônimo de ‘namorar’, ‘fazer a corte’ etc.
Aliás os casamentos entre a gente nobre faziam-se por conveniência e não por amor. Assim, o ‘amor’ era algo de que ‘senhor’ dispunha para conceder ao trovador que, encontrando-se a ‘serviço’. Ela achasse digno de receber o respectivo ‘galardão’, que podia ir ao extremo limite de favores corporais. Mas o ‘galardão’ podia ser apenas (e era-o geralmente) a pura aceitação pela dama do preito de vassalagem do trovador.

(TORRES, A. P. (org) Antologia da poesia portuguesa. Porto, Lello e Irmão, 1977. v.1, p.5


 

CANTIGA DE MALDIZER

Maria Peres se mãefestou
noutro dia, ca por pecador
se sentiu, e log’a Nostro Senhor
pormeteu, pelo mal em que andou,
que tevess’um clérig’a seu poder,
polos pecados que lhi faz fazer
o demo, com que x’ela sempr’andou.

Mãefestou-se, ca diz que s’achou
pecador muit’e, porém, rogador
foi log’a Deus, ca teve por melhor
de guardar a El ca o que a guardou.
E mentre viva diz que quer teer
um clérigo, com que se defender
possa do demo, que sempre guardou.

E pois que bem seus pecados catou,
de as mort’ ouv’ela gram pavor
e d’esmolnar ouv’ela gram sabor.
E logo entom um clérogo filhou
e deu-lhe a cama em que sol jazer.
E diz que o terrá mentre viver.
e está fará; todo por Deus filhou.

E pois que s’este preito começou,
antr’eles ambos ouve grand’amor.
Antr’el á sempr’o demo maior
atá que se Balteira confessou.
Mais pois que viu o clérigo caer,
antr’eles ambos ouv’i a perder
p demo, dês que s’ela confessou.

(In: Fernando V. Peixoto da Fonseca, org. Cantigas de escárnio e maldizer dos trovadores galego-portugueses. Lisboa: Livr. Clássica, 1961. p. 76.)


ca: pois
pecador: pecadora
Nostro Senhor: Nosso Senhor
polos:  pelos
ca: porque
mentre: enquanto
pois: depois
d’esmolnar: de esmolar
filhou: agarrou
cama em que sol jazzer: cama em que dormia só
terrá: terá
preito: pacto
atá: até
caer: cair
ouv’i: teve nisso
dês que: desde que


Na cantiga o nome da pessoa satirizada é identificado: Maria Balteira. Ela tinha sido uma soldadeira - mulher que dançava e cantava durante as apresentações e, por isso, tinha má reputação – que agora se diz “regenerada”.

O trovador ironiza a pretensa regeneração da soldadeira, ao fazer um jogo de palavras, insinuando que ela, para combater o mal e as tentações, “teve um clérigo em seu poder”. Essa expressão tem duplo sentido: tanto pode significar que ela se aproximou da religião quanto arranjou um padre como amante. O último sentido, evidentemente, é reforçado pelo autor quando, na 3ª estrofe, afirma que ela deu cama ao religioso.

Embora as diferenças não sejam rígidas, nas cantigas de escárnio geralmente o nome da pessoa satirizada não é revelado. A linguagem normalmente é carregada de ironia, de sutilezas, trocadilhos e ambiguidades. Já a cantiga de maldizer costuma identificar o nome da pessoa satirizada e fazer-lhe uma crítica direta, em forma de zombaria. A linguagem é mais grosseira, por vezes obscena.

REFERÊNCIAS

CEREJA, W. R. & MAGALHÃES, T. C. Português: linguagens, v. u. Ed. Atual, São Paulo: SP, 2003.
MAIA, J.D. Português N. Ensino Médio. São Paulo, Ática, 2004.
TERRA. E. & NICOLA, J. de. Língua, Literatura & Redação, Ed. Scipione, São Paulo: SP, 1994.

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